Em busca da arca de Noé

O memorando do encontro Bush-Lula, em março, acerca da produção de etanol e de biocombustíveis, não deixa de causar preocupações nos meios do pensamento ecológico. O relatório do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC) deixou claro que a

Terra está buscando celeremente um novo equilíbrio com o aumento de sua temperatura, que pode provocar um verdadeiro transtorno nos climas mundiais, uma devastação da biodiversidade e um risco de desaparecimento de milhares e milhares de seres humanos. Esta situação alarmante está suscitando novas responsabilidades nos governos do mundo inteiro, procurando adaptações e estratégias de minoração dos efeitos nocivos. Aqui e acolá se ouvem vozes que falam da urgência de uma central mundial de poderes para enfrentar coletivamente os problemas globais e também da necessidade de uma revolução objetiva nos modos de produção e de consumo. Caso contrário, poderemos conhecer, ainda neste século, o destino dos dinossauros.

Depois de reinarem, soberanos, por 133 milhões de anos sobre o planeta, desapareceram, há 65 milhões de anos, incapazes de se adaptar ao estado novo da Terra, provocado pela queda de um imenso meteoro rasante, provavelmente, no Caribe.

No memorando Bush-Lula, busca-se uma alternativa à matriz energética dominante, mas não uma alternativa ao tipo de sociedade menos energívora e mais respeitosa para com a Terra. O que ambos procuram é uma arca de Noé que possa salvar o sistema imperante.

Ora, cabe perguntar: esse sistema pode e merece ser salvo? Não é ele que com sua voracidade de explorar de forma ilimitada todos os recursos da natureza é o principal responsável pelo aquecimento global? Sobre isso o IPCC não diz sequer uma palavra.

Minuciosos cálculos revelaram que o sistema dominante e globalizado, movido a petróleo e com uma economia de competição e não de cooperação, só funciona a contento apenas para 1,6 bilhões de pessoas. Ocorre que somos cerca de 6,5 bilhões. Como ficam esses restantes? Edward Wilson, o grande especialista da biodiversidade, em 'O futuro da vida' deixou claro que se quiséssemos universalizar o bem estar dos países industrializados, deveríamos contar com outras três Terras iguais a esta.

Nosso modo de viver não é, pois, sustentável. Chegou agora, com as mudanças climáticas, ao seu fim, no duplo sentido de fim: realizou suas potencialidades (fim como objetivo alcançado) e também chega ao seu fim, (fim como morte) condenado a desaparecer.

O que está em jogo não é, portanto, uma alternativa à matriz energética, mas uma alternativa ao padrão de produção e consumo, numa palavra, uma alternativa de civilização. Que adianta redesenharmos todo o mapa produtivo brasileiro em função de manter o velho sistema se ele já tem os dias contados?

Sobre este ponto, o memorando Bush-Lula não faz sequer um aceno. Convocados a ajudar na formulação de alternativas não são tanto técnicos nem economistas, mas pensadores, os que vêm das ciências da vida e da Terra, os portadores de um novo sonho, capaz de construir uma arca de Noé que inclua realmente a todos e não apenas alguns. O tempo do relógio corre contra
nós.

Seria desejável que no Governo Lula houvesse, como em outros países há, uma central para pensar a crise sistêmica e suas possíveis saídas salvadoras. Junto com tantos amantes da Terra, aqui deixamos este desafio.

Leonardo Boff
março de 2007

Texto enviado por Esteban Moreno - Rio de Janeiro- RJ